Café!Café!Café!

Um blog sobre… o que mesmo?

Gourmet ou não gourmet, eis a questão…

Em 1998, Consuelo García Gallarín, em seus estudos sobre latinismos e as formas de entrada de neologismos na língua, demonstrou que através dos aspectos semânticos, onde existem relações estabelecias entre uso, cultura e disseminação por associação, o universo conceitual inicial de uma palavra é ampliado.

Mas, oi? Pois é… Explico já.

Na França, lá pelos idos de 1402, a palavra gourmet (vinda de gromme/grumete: jovem/criado) foi cunhada e usada para definir os comerciantes de vinho e/ou os ajudantes destes profissionais. Já no sec. XVII o termo ganha outro sentido e passa a significar ‘aquele que sabe degustar e apreciar vinhos’. Do século XV até o XVIII, ou mesmo até o séc. XX, a palavra mudou pouco o seu sentido, apenas ficou mais elaborada: indivíduo que é bom apreciador e entendedor de boas mesas, de bons vinhos e se regala com finos acepipes e bebidas, um gastrônomo ou gourmand.. O verbete está lá no Moderno Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, publicação da déc. de 90 do século passado, dicionarizado (ainda) como um substantivo.

gourmet

Gourmet, segundo estudos de Consuelo G. Gallarín. Página 168, do livro da autora “Léxico del 98”, Editorial Compluitense S.A., Madrid, 1998.

No entanto, graças à velocidade, digo, ao atropelamento de informações desse novo século, a palavra gourmet, que não modificou muito em cinco séculos, em menos de uma década virou outra(s) coisa(s). Ela não está mais somente ligada aos indivíduos que apreciam comida ou bebida, ela agora é um adjetivo que qualifica, daí, extremamente subjetiva. Como a palavra “bonito”: o que é bonito pra mim pode não ser bonito pra você. Daí que uma palavra de mais de 600 anos, quase insignificante até o início dos anos 2000, de repente virou “febre” e num piscar de olhos, tudo ao nosso redor vem sendo “gourmetizado” (virou verbo também!)! Sabe o “podrão” da esquina, aquele nosso querido cachorro quente? Gourmetizaram! E a varanda daquele prédio? Goumetizou-se!
Isso porque ao sair da nomeação de um especialista da área gastronômica, a palavra passou a ser usada por diversas áreas como  arquitetura, publicidade, branding, marketing e outras, principalmente às ligadas a produtos e sua comercialização. De fato, gourmetizar está na moda, surfando à vontade na onda de um novo estilo de consumir, isto é baseada exclusivamente na pressão ávida do consumismo. E pelo visto, entrou no nosso substrato cultural para ficar por um bom tempo.
Pesquisando encontrei várias “novas definições” para este vocábulo. Entre adjetivações e subjetivações (olha aí o trocadilho, gente!), o que fica claro é que realmente NÃO há consenso (e nem lógica!) para as muitas declarações de entendimento do termo. Algumas assertivas mostram que visivelmente há interesses pessoais/profissionais no termo e uns debruçam-se tão somente a explicar seus próprios universos, como se estivessem a definir o conceito segundo aquilo que julgam lhes caber melhor. Algumas se tornam engraçadas e demonstram a confusão desta virada cultural em que a palavra está inserida, momento histórico que ainda é muito novo para se auto definir ou explicar conceitos com concretude. Mas enfim, fiz um apanhado via site de busca e aqui você pode observar com seus próprios olhos e rir um pouco dessa salada mista (apesar de ser bastante séria a questão).

Usarei a célebre frase do personagem abaixo para minha conclusão:

inigo

Inigo, o divertido personagem do filme “A Princesa Prometida”.

Bem, voltando lá em cima e observando os estudos da pesquisadora Consuelo, que leva em consideração a tradicional psicologia humana em que “quem conta um conto aumenta um ponto”: era exatamente isso o esperado!! (Juro!) Aconteceu o mesmo com quase todas as palavras, desde o tempo da antiga Roma e Grécia. Aliás, suuuuper normal.

Só que com menos rapidez, né gente… Menos, por favor!

Pessoalmente, sem querer ser purista (já sendo), eu prefiro me manter fiel ao sentido dicionarizado e posso mesmo me considerar uma gourmet do café (olha o substantivo ai!). Nunca usei esse termo para mim mesma, mas faz todo o sentido, não só no quesito “aquela que tem prazer em provar cafés”, como também no sentido profissional, o da pessoa que prova e degusta cafés na busca por diversidade de sabores e riqueza sensorial desta bebida. E não estou falando nos cafés “gourmet”, ainda!… pois isso é papo para outro texto.

Beijins cafeinados!
Moni Abreu
Cafeóloga que adora palavras. Escritora que ama café!
http://cafecafecafe.com.br

PS: Para quem gosta de zoar o termo (ou àquele que faz uso do mesmo), divirta-se com esse canal do Tumblr (http://gourmetizacaodavida.tumblr.com/) ou com esse vídeo do pessoal do Amada Foca (https://www.youtube.com/watch?v=xq6wTcLB_vg)

 

 

 


Deixe seu comentário

Nome
Email
Web site
Seu comentário

*